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Reganho de Peso Pós-Bariátrica: por que acontece e como retomar o controle do tratamento?

Para quem passou pela cirurgia bariátrica, perceber que os números da balança voltaram a subir depois de alguns anos pode trazer frustração, culpa e até receio de procurar novamente o médico.

Mas existe algo muito importante que precisamos entender: o reganho de peso não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou como fracasso da cirurgia.


A obesidade é uma doença crônica e recidivante. A cirurgia bariátrica continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para seu tratamento, mas não elimina definitivamente todos os mecanismos biológicos, comportamentais e ambientais envolvidos no controle do peso.


E o reganho, em diferentes graus, é uma realidade conhecida no acompanhamento de longo prazo.

Em um estudo com pacientes submetidos ao bypass gástrico, 41% apresentaram reganho de peso após 10 anos. Em outra coorte, publicada mais recentemente, 45,6% dos pacientes recuperaram mais de 30% do peso que haviam perdido inicialmente após uma década. É importante destacar, porém, que os números variam bastante entre os estudos justamente porque ainda não existe uma definição única para o que deve ser considerado “reganho significativo”. [Obesity Surgery, 2016; estudo longitudinal publicado em 2026.]


Por que o peso pode voltar a subir?

Não existe uma única causa. Na maioria das vezes, o reganho é resultado da combinação de diferentes fatores.


Adaptações fisiológicas e metabólicas: com o passar dos anos, mecanismos relacionados à fome, saciedade e gasto energético podem favorecer a recuperação de parte do peso perdido.


Alterações anatômicas: dependendo da técnica cirúrgica, mudanças como dilatação da bolsa gástrica ou da anastomose gastrojejunal podem reduzir parte do efeito restritivo da cirurgia. A literatura reconhece, por exemplo, a dilatação da anastomose como um dos fatores associados ao reganho após o bypass.


Mudanças no comportamento alimentar e no estilo de vida: alimentação mais calórica, redução da atividade física, perda de rotina e o hábito de consumir pequenas quantidades de alimentos repetidamente ao longo do dia, comportamento conhecido como grazing, podem contribuir. Uma revisão sistemática encontrou grazing em 16,6% a 46,6% dos pacientes avaliados e associação com reganho em quatro dos cinco estudos analisados.


Saúde emocional: estresse, ansiedade, compulsão e outros fatores psicológicos também precisam fazer parte da investigação.


Por isso, antes de simplesmente recomendar “voltar para a dieta”, precisamos entender por que aquele paciente voltou a ganhar peso.


A cirurgia não “parou de funcionar”


Esse é outro conceito importante.


Mesmo quando existe algum reganho, muitos benefícios metabólicos proporcionados pela bariátrica podem permanecer. Em uma coorte acompanhada por dez anos após bypass, os pacientes ainda apresentavam, em média, 23,4% de perda do peso corporal total, apesar da ocorrência de reganho em uma parcela significativa do grupo.


O problema, portanto, não deve ser encarado como “começar tudo novamente”.

Precisamos avaliar o que mudou e retomar o tratamento a partir do ponto em que o paciente está hoje.


O papel da equipe multidisciplinar


Uma investigação adequada pode envolver avaliação médica e cirúrgica, exames laboratoriais, análise nutricional, avaliação do comportamento alimentar, saúde emocional, atividade física e, quando indicado, endoscopia para verificar a anatomia pós-operatória.


A partir daí, conseguimos identificar quais fatores estão predominando e escolher a estratégia mais adequada.


E atualmente temos muito mais ferramentas do que tínhamos há alguns anos.


Existem tratamentos para o reganho?


Sim, e essa é a principal mensagens a ser passada por este artigo.


Dependendo da causa, podemos utilizar mudanças estruturadas no estilo de vida, acompanhamento nutricional e psicológico, medicamentos para obesidade, tratamentos endoscópicos e, em casos selecionados, cirurgia revisional.


Os medicamentos modernos ampliaram consideravelmente nossas possibilidades. Uma meta-análise publicada em 2025 mostrou que agonistas de GLP-1 utilizados em pacientes com reganho ou resposta insuficiente após cirurgia bariátrica produziram redução média adicional de aproximadamente 8 kg.


Outra revisão sistemática e meta-análise de 2025, envolvendo 27 estudos e incluindo 10 deles na análise quantitativa, também encontrou resultados favoráveis com essa classe de medicamentos no tratamento do reganho pós-bariátrico.


Há ainda opções endoscópicas para situações específicas.


Nos pacientes submetidos ao bypass que apresentam dilatação da anastomose gastrojejunal, por exemplo, procedimentos endoscópicos podem reduzir novamente o diâmetro dessa comunicação.


A própria American Society for Metabolic and Bariatric Surgery (ASMBS) reconhece atualmente que o tratamento do reganho deve ser individualizado e pode envolver medicamentos, terapias endoscópicas ou cirurgia revisional, dependendo das causas e das características de cada paciente.


Um olhar especializado para um novo momento do tratamento


Depois de anos acompanhando pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, aprendi que o reganho de peso costuma trazer uma carga emocional muito maior do que o número mostrado pela balança.


Muitos chegam ao consultório frustrados, acreditando que falharam ou que perderam tudo aquilo que conquistaram.


Não é assim que eu enxergo esse momento.


O reganho precisa ser investigado como parte da evolução de uma doença crônica. Foi justamente a experiência acompanhando esses pacientes que me levou a aprofundar cada vez mais meus estudos sobre o tema e sobre as novas possibilidades de tratamento, podendo ser medicamentosas, endoscópicas e cirúrgicas.


Hoje temos ferramentas que não estavam disponíveis há alguns anos e conseguimos compreender melhor os mecanismos envolvidos no reganho. O mais importante é identificar o que está acontecendo com aquele paciente, naquele momento, e construir uma nova estratégia.


Com nosso time em Brasília, essa avaliação é realizada de forma individualizada, procurando compreender a história, a anatomia da cirurgia, o comportamento alimentar, o metabolismo e as necessidades atuais de cada pessoa.


"Você não precisa voltar ao ponto de partida. Talvez precise apenas encontrar a estratégia certa para esta nova etapa do seu tratamento."




 
 
 

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