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Emagreci, e agora? Cuidados com o corpo depois da perda de peso.


Emagrecer é uma conquista importante. Para quem conviveu durante anos com sobrepeso ou obesidade, ver os números da balança diminuírem geralmente significa também melhorar a saúde, a disposição, a mobilidade e a qualidade de vida.


Mas existe uma fase dessa jornada sobre a qual ainda falamos pouco: o que acontece com o corpo depois do emagrecimento?


Flacidez, excesso de pele, perda de massa muscular, gordura localizada e alterações no contorno corporal podem se tornar mais evidentes. Em algumas mulheres, o emagrecimento também pode revelar uma desproporção persistente entre tronco, pernas e braços, acompanhada de dor, sensibilidade ou facilidade para desenvolver hematomas, sinais que merecem investigação para lipedema.


Por isso, gosto de lembrar aos meus pacientes que chegar ao peso desejado nem sempre representa o fim do tratamento. Muitas vezes, é o início de uma nova fase de cuidado com o corpo.


O corpo muda durante o emagrecimento

Quando perdemos peso, não eliminamos exclusivamente gordura. Dependendo da intensidade do emagrecimento, alimentação e atividade física, também pode ocorrer redução de massa magra.

Uma subanálise do estudo SURMOUNT-1, por exemplo, avaliou a composição corporal de pessoas que utilizaram tirzepatida para tratamento da obesidade. Aproximadamente 74% do peso perdido correspondeu à gordura e 26% à massa magra. Isso reforça a importância de acompanhar não somente o peso, mas também a composição corporal durante o tratamento. (PubMed)


Preservar ou recuperar musculatura por meio de alimentação adequada, consumo apropriado de proteínas e exercícios de força é, portanto, parte fundamental dessa nova etapa.

Outra consequência bastante comum é a flacidez. Depois de uma perda significativa de volume, a pele nem sempre consegue se retrair completamente. Idade, genética, quantidade e velocidade do emagrecimento, exposição solar, tabagismo e histórico de obesidade são alguns dos fatores que podem influenciar esse processo.


Nos emagrecimentos mais expressivos, especialmente após cirurgia bariátrica, o excesso de pele pode ser significativo e até provocar desconfortos funcionais, como assaduras, dificuldade para praticar exercícios e problemas nas dobras cutâneas.

Por isso, aquilo que muitas vezes é chamado simplesmente de "estética pós-emagrecimento" pode envolver também saúde, funcionalidade e qualidade de vida.


Remodelação corporal: quais são as possibilidades?

A medicina dispõe hoje de diferentes recursos que podem ser utilizados para melhorar algumas consequências do emagrecimento.


Existem tecnologias destinadas a estimular colágeno e melhorar a firmeza da pele, outras que podem atuar sobre pequenos depósitos de gordura localizada, além de procedimentos voltados para melhora do contorno corporal e estímulo muscular.


Radiofrequência, ultrassom, tecnologias eletromagnéticas, procedimentos injetáveis e diferentes formas de tratamento do tecido adiposo são alguns exemplos disponíveis atualmente. Dependendo da necessidade, diferentes técnicas também podem ser associadas dentro de um planejamento individualizado.


É importante, entretanto, compreender uma diferença fundamental: remodelação corporal não é tratamento para obesidade e não substitui emagrecimento, alimentação adequada ou atividade física.


Essas ferramentas podem ser utilizadas como complemento quando existe uma indicação específica.


Da mesma maneira, nenhuma tecnologia não invasiva consegue reproduzir o resultado de uma cirurgia quando existe grande excesso de pele. Nesses casos, procedimentos de cirurgia plástica, como abdominoplastia e correções de braços, mamas ou coxas, podem ser considerados após avaliação especializada.


Uma revisão sistemática envolvendo 6.867 pacientes após cirurgia bariátrica mostrou que existe grande interesse por procedimentos de contorno corporal após perdas expressivas de peso, embora somente 18,5% dos pacientes das populações estudadas tivessem realizado essas cirurgias. (PubMed)


Ou seja, hoje temos um verdadeiro arsenal de possibilidades, mas não existe uma ferramenta ideal para todas as pessoas.


E quando as pernas não emagrecem na mesma proporção?

Essa situação merece uma atenção especial. Algumas mulheres percebem que emagrecem significativamente no rosto, abdome e tronco, mas as pernas e, algumas vezes, os braços permanecem proporcionalmente maiores.


Quando essa desproporção vem acompanhada de dor, sensação de peso, sensibilidade ao toque, edema ou facilidade para desenvolver hematomas, é importante investigar a possibilidade de lipedema.


O lipedema é uma doença crônica que acomete predominantemente mulheres e é frequentemente confundida com obesidade ou simplesmente gordura localizada.


Um estudo brasileiro estimou uma prevalência de sintomas sugestivos de lipedema de aproximadamente 12,3% entre mulheres, embora seja importante ressaltar que esse resultado foi obtido por instrumento de rastreamento e não significa que todas essas mulheres possuíssem diagnóstico clínico confirmado. (PubMed)


Essa diferenciação é essencial porque gordura localizada, obesidade e lipedema não são a mesma coisa e, consequentemente, não devem ser tratados da mesma maneira.


O tratamento do lipedema pode envolver controle do peso quando necessário, atividade física, alimentação, fisioterapia, terapia compressiva, cuidados para controle de edema e dor e, em situações selecionadas, procedimentos específicos. O Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em 2025, reforça justamente a necessidade de uma abordagem individualizada e multidisciplinar. (PubMed)


Primeiro o diagnóstico. Depois, a ferramenta.

Talvez este seja o conceito mais importante dessa nova fase do tratamento.

Hoje existem muitas tecnologias e procedimentos disponíveis para remodelação corporal. O avanço nessa área tem sido muito rápido e permite resultados que alguns anos atrás eram difíceis de alcançar sem cirurgia.


Mas não devemos escolher primeiro o procedimento e depois tentar encaixar o paciente nele.


Antes de indicar qualquer tratamento, precisamos entender qual é realmente a queixa, dentre as quais destacamos como as mais comuns a gordura localizada, flacidez, excesso de pele, perda de massa muscular ou lipedema.


A partir dessa avaliação podemos definir quais ferramentas fazem sentido, quais podem ser associadas e, principalmente, quais não estão indicadas para aquele paciente.


Emagrecer não precisa ser o fim da jornada

Durante muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade foi avaliado quase exclusivamente pela balança, contudo hoje sabemos que podemos e devemos olhar além.


Peso, percentual de gordura, massa muscular, saúde metabólica, força, mobilidade, sintomas e qualidade de vida fazem parte de uma avaliação muito mais completa.


Depois de emagrecer, portanto, talvez a pergunta deixe de ser apenas:

"Quanto ainda preciso perder?"


E passe a ser:

"O que o meu corpo precisa agora?"


Para algumas pessoas, a resposta será ganhar massa muscular. Para outras, melhorar a flacidez ou tratar uma gordura localizada. Algumas precisarão de cirurgia para excesso de pele. E outras descobrirão que aquela alteração persistente nas pernas não era simplesmente gordura, mas uma condição como o lipedema.


A boa notícia é que hoje temos diferentes ferramentas para cuidar também dessa nova etapa da transformação corporal. O mais importante é entender que cada paciente tem necessidades diferentes e que essas ferramentas devem ser utilizadas com indicação adequada, expectativas realistas e dentro de um planejamento individualizado. Afinal, depois de emagrecer, nosso objetivo não deve ser simplesmente buscar um corpo diferente, mas construir um corpo cada vez mais saudável, funcional e no qual você se sinta bem.






Referências

  • Look M et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study. Diabetes Obes Metab. 2025.

  • Jiang Z et al. A systematic review of body contouring surgery in post-bariatric patients. Obesity Reviews. 2021.

  • Amato ACM et al. Lipedema prevalence and risk factors in Brazil. J Vasc Bras. 2022.

  • Moraes Amato AC et al. Brazilian Consensus Statement on Lipedema using the Delphi methodology. J Vasc Bras. 2025.

 
 
 

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